Cada gravação tem um horário, um destinatário inesperado e uma história que não terminou quando alguém percebeu o engano. Escolha uma das histórias românticas para ouvir e preste atenção no que acontece depois do último segundo.
Ter, 01h37, chat trocado
Você não era o destinatário
Eu estava voltando de um jantar, parada no carro, na frente do meu prédio. Mandei aquele áudio achando que estava falando com minha melhor amiga. Só que foi para você. Eu dizia que tinha passado a noite inteira tentando não olhar para a sua boca enquanto você contava aquela história do restaurante. E, bom, você respondeu. Primeiro perguntou se eu tinha chegado bem. Depois escreveu que também tinha percebido meus olhares. Fiquei uns dez minutos olhando para a tela, com o motor já desligado e a chuva batendo no teto. Não apaguei a mensagem. No sábado, a gente marcou um café. Dessa vez, escolhi o destinatário com cuidado. Mas acho que já não precisava.
Surpresa íntima
Qua, 23h12, saudade antiga
A rua ainda tem seu nome
Tem uma padaria na esquina da Rua das Flores que ainda fecha às onze. Passei lá ontem e senti aquele cheiro de pão quente que sempre ficava na sua camisa quando você voltava do trabalho. Gravei um áudio para minha irmã contando que, depois de três anos, ainda faço o caminho mais longo só para passar naquela calçada. Só que enviei para você. Vi seu nome aparecer e quase deixei o celular cair. Sua resposta veio depois de alguns minutos: você ainda compra pão ali às quintas? Eu ri sozinha, encostada no balcão da cozinha. Não sei se foi saudade ou coragem, mas respondi que sim. Quinta-feira parece uma boa noite para conversar.
Nostalgia
Qui, 02h06, segredo revelado
O jantar que eu inventava
Preciso contar uma coisa que nunca tive coragem de falar olhando para você. Toda vez que dizia que tinha um compromisso depois do expediente, muitas vezes era só uma desculpa para passar perto do seu escritório. Eu sabia o horário em que você descia, sabia que comprava café sem açúcar e até reconhecia o som da sua risada no corredor. Gravei isso para uma amiga, depois de voltar de uma festa, ainda com os brincos e o vestido da noite. Só que o áudio foi parar no seu chat. Você não respondeu naquela hora. Na manhã seguinte, encontrei uma mensagem sua: eu também inventava reuniões para sair no mesmo horário. Desde então, nossos cafés deixaram de ser coincidência. E ninguém mais precisa inventar compromisso.
Confissão
Sex, 00h48, ciúme discreto
A fotografia na varanda
Olha, eu sei que não tenho direito de cobrar nada. A gente nunca combinou exclusividade, nunca colocou nome no que existe entre nós. Mas vi aquela foto sua na varanda, com uma taça na mão e alguém fora do enquadramento, e passei o resto da noite imaginando quem estava ali. Gravei um áudio para o meu próprio diário, porque precisava ouvir a minha voz admitindo que estava com ciúme. Só que mandei para você. Sua resposta foi uma pergunta simples: você queria estar aqui? Fiquei olhando para a janela do meu apartamento, onde o reflexo da cidade parecia distante. Queria. Quero. E, pela primeira vez, acho que consigo dizer isso sem fingir que é brincadeira.
Vulnerabilidade
Sáb, 03h19, quase despedida
O elevador demorou demais
O elevador do prédio estava quebrado naquela noite, então subi sete andares pensando no que deveria ter dito antes de você ir embora. A gente tinha discutido por uma bobagem, uma dessas coisas que crescem porque ninguém quer ser o primeiro a pedir desculpas. Gravei uma mensagem para minha prima, tentando explicar que eu tinha sido injusta, que senti falta da sua mão procurando a minha na mesa do restaurante. Só percebi o erro quando apareceu seu nome. Pensei em apagar, mas já tinha sido ouvido. Você respondeu com um áudio baixinho, ainda acordando, dizendo que também tinha subido aquelas escadas da nossa última conversa por dentro, muitas vezes. No domingo, tocou minha campainha com dois cafés. Nenhum de nós mencionou a discussão.
Arrependimento
Dom, 22h54, atração secreta
O perfume no corredor
Hoje encontrei seu perfume no corredor do elevador. Parece absurdo reconhecer alguém pelo cheiro, mas eu reconheceria o seu até no meio de uma estação lotada. Eu estava gravando para uma amiga, contando que nossas conversas sobre livros estão ficando perigosamente interessantes e que comecei a escolher minha roupa pensando no dia em que vou encontrar você. O problema é que o áudio foi para o seu chat. Você respondeu com uma risada curta e depois disse que tinha comprado aquele livro que recomendei, mas ainda não começou porque queria ler comigo. Fiquei parada diante do espelho, ajeitando uma mecha de cabelo sem necessidade nenhuma. Talvez a gente esteja demorando demais para admitir que gosta de estar perto. Marquei a leitura. Levei também um perfume diferente.
Desejo contido
Seg, 01h11, encontro adiado
Duas passagens na gaveta
Encontrei duas passagens antigas dentro de uma gaveta enquanto procurava um carregador. Eram daquele fim de semana que planejamos juntos e nunca aconteceu, lembra? Você precisou viajar, eu fiquei chateada e depois a vida foi empurrando a conversa para longe. Gravei um áudio para minha irmã dizendo que ainda guardava os bilhetes, não por tristeza, mas porque aquela viagem representava uma versão de mim que tinha coragem de fazer planos a dois. Só que enviei para você. Achei que fosse ficar sem resposta. Em vez disso, recebi uma fotografia de um mapa aberto sobre sua mesa e uma pergunta: ainda conhece aquele hotel perto do mar? Não conheço mais. Mas posso descobrir. E dessa vez não vou deixar as passagens esquecidas.
Esperança
Ter, 04h02, verdade tardia
Não era só amizade
São quatro da manhã e eu devia estar dormindo, mas fiquei lembrando daquele aniversário em que você foi embora cedo porque precisava trabalhar. Eu fiquei na cozinha, lavando os copos, e percebi que estava triste não pela festa ter acabado, mas porque você tinha ido embora. Durante meses chamei isso de amizade, de costume, de qualquer coisa que não exigisse uma resposta. Gravei para uma pessoa de confiança, só que o áudio chegou até você. Houve um silêncio enorme. Depois você mandou: posso falar uma coisa também? Claro que podia. Disse que esperava uma oportunidade para me contar que sentia o mesmo. Agora estou aqui, com o celular no peito e um sorriso que não consigo esconder. Às vezes, o engano é a única maneira de parar de fugir.
Libertação